quarta-feira, 5 de abril de 2017

Futuro do jornalismo é ajudar as pessoas a entenderem os acontecimentos

“Precisamos deixar de simplesmente relatar acontecimentos e passar a ajudar as pessoas a entendê-los," afirma Nick Davies.


O jornalismo investigativo, feito a partir de demoradas apurações e com textos longos e dados checados de forma criteriosa, parecia sentenciado à morte. No entanto, as reportagens especiais sobreviveram e, agora, voltaram a ser valorizadas por alguns veículos de comunicação. E podem ganhar ainda mais fôlego. Essa é a visão do inglês Nick Davies, um dos mais destacados jornalistas investigativos da atualidade e colaborador do The Guardian. Em entrevista ao programa Milênio, do canal de televisão por assinatura GloboNews, ele disse acreditar que este é o futuro do jornalismo: “Precisamos deixar de simplesmente relatar acontecimentos e passar a ajudar as pessoas a entendê-los.”
Davies afirmou que os meios de comunicação já perceberam que, com a internet tirando seus leitores, a forma de recuperá-los é dar às pessoas a chance de entender o mundo, “que está muito complicado e confuso”. Na entrevista, concedida ao jornalista Marcelo Lins, Davies sustentou sua tese explicando como a nova tendência ganhou força entre os editores.
“Há dez anos, quando a internet nos assustava, muitos gerentes disseram: ‘Precisamos economizar. Vamos parar de fazer investigações longas e complicadas. Elas são muito caras.”’, lembrou. “Agora eles estão dizendo: ‘Precisamos dessas investigações, que são especiais. Assim, as pessoas virão até o nosso site.’”, disse. Ele ressaltou ainda que “pela primeira vez, existe apoio comercial para isso”.
Dessa forma, de acordo com ele, o The Guardian passou a investir mais em leituras longas. “São reportagens de 6 mil palavras, enormes, que só 1% ou 2% de nossos leitores vão ler, mas, quando leem, dizem: ‘Ah, agora entendi. Vou ler o Guardian amanhã’”, enfatizou o repórter, responsável por coberturas de grande impacto internacional, como o da revelação de informações que até então eram sigilosas da inteligência dos Estados Unidos obtidas pelo site WikiLeaks e o escândalo das escutas ilegais na Inglaterra, que resultou no fechamento do centenário tabloide News of the Wolrd do magnata da mídia Rupert Murdoch.
No entanto, Davies alerta para duas armadilhas nesse processo que precisam ser evitadas. A primeira delas passa pelas linhas editoriais de alguns veículos que têm por base a superficialidade. Segundo ele, a atual crise dos refugiados “é uma história interessante” sobre a forma como essa imprensa funciona. “Se tomarmos como exemplo os jornais populares do Reino Unido, eles frequentemente pegam um assunto muito complicado e o reduzem ao nível da estupidez, simplificando-o”, afirmou. No início, disse ele, muitos desses jornais trataram os refugiados sírios, em particular, chegando à costa sul dos países mediterrâneos como uma “gente pobre e suja” que chega e estraga as férias dos britânicos. “Isso é uma estupidez; não discute o problema de milhões de pessoas que fogem da devastação e da morte em busca de um lugar seguro”, criticou Davies.  
Após a publicação da foto de um menino sírio morto em uma praia, que ganhou destaque em todo o mundo, no entanto, o ponto de vista desses jornais mudou completamente. A partir dali, contou o repórter inglês, o foco desses veículos passou a ser o de uma campanha de amparo aos refugiados. “Pode ser moralmente correto se importar com o garoto morto, mas também é uma estupidez, porque ninguém parou para analisar o problema”, sentenciou.
A outra armadilha é antiga, a da propaganda dos governos, que ganhou um aliado poderoso para desinformar: a web. “Acho extremamente provável que as agências militares e de inteligência estejam divulgando notícias falsas”, disse ele ao comentar a atual crise entre ocidente e oriente. “Não investiguei, então não sei, mas, por exemplo, nas últimas semanas, quando Putin iniciou os bombardeios em favor de Assad, as potências ocidentais ficaram muito nervosas”, citou. “Elas enxergam isso como uma disputa por poder. Então há um fluxo constante de notícias sobre bombardeios que atingiram as pessoas erradas. Algumas podem ser verdadeiras, mas, se descobrirmos que algumas foram inventadas, não será surpresa. É o jogo da propaganda”, afirmou.
Davies ressaltou ainda que os “jornais têm muito poder” e, por isso, precisam promover a cobertura de falhas nos próprios meios de comunicação (como no caso do News of the Wolrd ). “O fluxo de informações, que tem tanto impacto na democracia e na forma como as pessoas veem o mundo, é muito importante. Portanto, se estamos fazendo coisas erradas, temos de admiti-lo”, recomendou.
Fonte: anj

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