sexta-feira, 5 de maio de 2017

De pornô a rituais satânicos: porque não consigo perdoar Xuxa

De pornô a rituais satânicos: porque não consigo perdoar Xuxa

Demorou muitos anos para conseguir entender esse fenômeno chamado Xuxa Meneghel. Sou da geração em que todo mundo a amava, cantava junto e dançava no meio da sala - e eu não era diferente. Meu primeiro vinil foi “Sexto Sentido” - se você não sabe, é aquele que tem “Pipoca” e “É de Chocolate”- e por anos achei ela a pessoa mais linda do mundo. Queria muito ser paquita e muitas vezes chorei para que meu pai pelo menos me deixasse ir a um programa. 

Meu pai sempre foi contra o meu fanatismo por ela, e só muito tempo depois que comecei a entender as críticas dele ao programa: paquitas eram brancas e loiras, e a maioria das crianças que iam no programa também. Eu não me encaixava naquele universo. Apenas quando adolescente passei a abominar tudo que aquela mulher representava, mas sem questionar o racismo que j[a havia se instalado lá atrás por ela.
Mas estamos aqui falando da Xuxa. Por ser da geração do Xou da Xuxa, eu não entendia porque algumas pessoas odiavam tanto aquela rainha. Discos rodados ao contrário? Mensagens subliminares? Promiscuidade nas roupas? Nada disso importava para as crianças que a idolatravam. Pelo contrário: neste sentido toda a maldade estava nos olhos de quem via, “os baixinhos” só queriam curtir.
Foi assim que Xuxa construiu um dos maiores impérios de entretenimento infantil do mundo, e isso tem um preço muito caro para uma pessoa na faixa dos seus 20 anos como ela tinha. Seus programas passavam em todo Brasil, além da Argentina, Espanha e Estados Unidos estarem ligados simultaneamente, atingindo cem milhões de telespectadores diariamente. Para se ter uma ideia, dos dez discos mais vendidos da história do Brasil, quatro são de Xuxa.
E ninguém sai ileso de tanta fama e sucesso. Depois do parto da Sasha, da briga com a produtora e “madrinha” Marlene Mattos e mais outras polêmica, aos poucos os baixinhos foram crescendo. Xuxa ficou sozinha e sem entender para quem falava, perdeu as crianças para outros nichos. 
Com a ascensão dos CDs, as histórias de que haviam mensagens subliminares no vinil se tocados de trás para frente foram sendo esquecidas, embora na década de 1990 tenha sido realmente uma controvérsia digna de debates nos programas de TV. Afinal, tinha algo estranho ou apenas uma tentativa de demonizar a moça?
Com a internet viria uma outra revelação. Aos 19 anos, a apresentadora participou do filme "Amor, Estranho Amor", em 1982, interpretando uma garota de programa e aparece nua ao lado de um menino de 12 anos. Recentemente Xuxa perdeu o processo que movia contra o Google para excluir do sistema a busca de imagens e associação dela com pedofilia.
Em 2015, após 29 anos de TV Globo, a apresentadora assinou contrato com a Rede Record, com direito a chegada ao vivo na sede da emissora. Os baixo índices de audiência e o cancelamento do programa na emissora foram motivos de piada com a participação dela em uma esquete de humor do canal Porta dos Fundos. Foi a primeira vez que vi Xuxa rir de si mesma e o motivo da minha pergunta: quem é a Xuxa? Com mais de 50 anos, acredito que nem ela mesma saiba responder. 
Questionar toda essa trajetória me obrigou a refletir sobre esta mulher que, mesmo racista, fez parte da minha formação como pessoa. Porque se eu não tivesse me enveredado pelos caminhos do movimento negro, talvez hoje ainda achasse que somente aquele é o padrão de beleza possível. Talvez ela tenha sido apenas um objeto manipulado pela indústria racista do entretenimento, mas é inegável sua contribuição para este sistema. 
Diante de suas declarações, sei que ela pouco (ou nada) tem de consciência racial e do quanto ela formou uma autoconsciência racista de toda uma geração. Pense apenas no quanto ela poderia ter contribuído para que meninas negras, como eu, entendessem que também podemos ser bonitas.
Existe sempre quem vá levantar o caso dela com o jogador Pelé como prova de diversidade racial, mas não é algo que eu consigo assimilar. Não que eu queira acusar ela de namorá-lo, assim como Senna, apenas para conseguir fama, o que considero machista. Apenas que aquele relacionamento sempre foi irreal.
Chamar Xuxa de feminista também não é apropriado, embora ela realmente sido vítima do machismo. Todas essas polêmicas acerca do trabalho dela nada mais são do que perseguições pelo fato de ser mulher e poderosa. Homens jamais seriam condenados por terem feito filmes pornôs ou chamados de demoníacos e hipersexuais em programas de tv, pelo menos não como Xuxa foi.
Não conseguimos perdoar Xuxa por ela ser mulher, mas pessoalmente não consigo perdoar Xuxa por nunca ter levantado esta bandeira. Por não rir de si mesma antes, por não mostrar a mulher que teve que aguentar tanta coisa e ainda ser o que foi. Por não entender que está até hoje contribuindo para o racismo - ou entender e não querer acabar com isso.
Xuxa não é somente uma vítima do sistema: é parte ativa dele. Ao perpetuar machismos dos quais ela mesmo é vítima, se torna uma de suas piores inimigas ao não assumir questões relacionadas a ser mulher nesta posição. Sasha, sua filha tímida, começa a seguir os mesmos passos. E, sinceramente, não precisamos mais de mulheres assim. 






Fonte: topbuzz

0 comentários:

Postar um comentário